SEJA BEM VINDO

Sente, tire o sapato, fique à vontade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Coalhada para os dias cinzas

A primeira vez que o Coalhada veio à minha casa ele era um pintor que deveria passar alguns dias trabalhando na sala, mas a verdade é que ele nunca mais se foi completamente.

Coalhada era lento mas se deu conta rapidamente de que os tempos eram cinzas e de que faltavam cores por todos os lados.

Depois de escutar algo, ele te olhava em silêncio por longos segundos e muitas vezes não dizia nada; somente sorria de uma forma engraçada e serena.

Um dia, quando cheguei do colégio, lhe contei sobre minha vontade de ter um quarto com uma parede de cor forte, coisa que minha mãe nunca deixou. Dias depois Coalhada atrevidamente pintava minha parede de vermelho; foi quando eu percebí que ele nunca mais iria embora. 

E não foi.

sábado, 3 de setembro de 2016

Meu gentleman preferido

Meu avô é um homem da rotina. Tem horário para tudo, se veste sempre igual e nunca gostou de viajar. Desde sempre, era só ele perceber que algo que ele me dava, me agradava, que aquilo virava rotina e ele repetia repetia repetia repetia até que eu, sutilmente, e com dor no coração, dizia para ele parar.  


Meu avô é a pessoa mais educada, bondosa, doce, elegante e justa que já passou por este mundo. Ele me ensinou que quando uma coisa precisa ser feita escondida, é porque ela está errada, e então, não deve ser feita. 

Nos melhores momentos, ele me disse, no ouvido, dentro de um abraço, - Alicinha, o vovô te ama tanto. Nos meus piores ele me disse, no ouvido, dentro de um abraço, - Alicinha, isto vai passar. Nunca me fez uma pergunta como uma espécie de condição para um abraço. A condição era o olhar. 

Quando criança, fazia de tudo para me agradar. Me deixava ganhar no dominó, comer todas as besteiras que eu não podia comer na minha casa e até se animava a me contar histórias antes de dormir. Estas histórias sempre tinham como protagonista um gato preto; sempre começavam no telhado de uma casa; e ele sempre terminava dormindo na metade do conto. 

Nosso amor está declarado em tantas cartas... Desde quando eu nem sabia escrever e então, desenhava. 

Meu querido avô, levantando às quatro da manhã, comendo pão às cinco da tarde, com seu jeito lento e doce de falar, sempre atento ao que agrada cada um... 

Dias difíceis são longos sem você,

Sua Alicinha 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Minha bravíssima preferida

Minha avó era uma mulher doce, bela, engraçada e bravíssima, podia falar com os olhos mas muitas vezes preferia gritar. Depois, se arrependia, se derretia e mostrava todo o seu carisma e doçura de volta. Preservava em si a menina que se casou aos dezesseis. 

Escrevia incrivelmente bem, com humor e elegância; sabia ressaltar as coisas certas e de uma forma original em seus cadernos e diários.

Costumava me oferecer dez reais para eu contar no que eu estava pensando e se depois vinha um conselho, era de cunho explosivo. Me dizia que eu deveria me impor, gritar, brigar, não aceitar.

Era pícara. Gostava de passar trotes para pessoas conhecidas, de preferência da família, e não chegava a admitir que era ela, desligava morrendo de rir. Quantas vezes ligamos para o Tio Tuzinho na madrugada falando que pensávamos ser do açougue porque vimos um boi branco na janela! 

Minha querida avó, altíssima, de pés pequenos, cabelos cor de mel, pele de pêssego e roupas de bolinhas... Sempre renovada, doce, fresca e forte. 

Dias difíceis são longos sem você,

Sua Lili 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Helena

Vestida de roxo, cheia de vida e determinação. Todos os olhos eram de Helena e os dela eram seus. Eu chorei quando a vi e me dei conta de que ela se despedia ali de um dos amores mais originais e carinhosos que uma mulher já experimentou. Sem você, com o que sonharia Helena agora? Para onde iriam os sonhos e as malas de Helena?

Helena, plena e serena, entre as flores mais lindas que Montevideo já viu, tocando as mãos das pessoas por igual e sem medo, sorrindo, sofrendo, abraçando e te amando. A Helena real era ainda melhor que a das cartas e dos livros, muito mais protagonista do que eu havia imaginado. 

sábado, 12 de setembro de 2015

Dom da Escrita

Deus me deu o dom da escrita.
Não canto,
não danço:
escrevo. 

Apago,
publico  
Ou guardo: 
Deus me deu um dom, 
que é livre.

Meus amores 
estão todos escritos.
Borrados,
com afeto 
e chuvas
de mim. 
Já que Deus me deu um dom, 
não mato. 

Palavras são 
minha cachaça:
Deus me deu um dom,
q'ueu trago. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Maravilhosa Marmita

Naquele dia, a marmita do Sr. Lido misturava macarrão, arroz, salada, carne e feijão - certamente um bálsamo para qualquer visitante daquela região inóspita, condenado a comer um salgado velho e frito -. Isto, imaginei, deveria vir antes do meu personagem, que agora me dou conta, não é nem tão fácil nem tão interessante quanto eu havia pensado.

Quando avistei aquele carro velho e azul, desbotado e cheio de pequenos isopores com quentinhas a oito reais e garrafinhas plásticas com suco de laranja natural, não pude conter minha felicidade em abandonar meu destino frito e borrachudo. Me prometi, em silêncio, que comeria até o macarrão. 

O Sr. Lido era ranzinza e camuflava seu temperamento áspero através de uma simpatia forçada e, as vezes, desagradável. Mas diante daquela marmita exagerada e deliciosa que ele me proporcionou tão inesperadamente, como não terminaria inspirada nele?

Pedagógico, o Sr. Lido percebeu por algum descuido meu, que eu não sabia comer naquelas condições: faminta, em pé, com os talheres de plástico que quebravam e quebravam, equilibrando uma quentinha tão maravilhosamente cheia. Foi então que ele me ofereceu uma cadeira que eu não saberia dizer de onde saiu, enquanto me contava sobre sua trajetória no ramo de quentinhas e sobre seus clientes fidelizados.

Conforme nossa conversa evoluía, me dava conta de que, independente da natureza da minha pergunta, o Sr. Lido sempre citava, na resposta, que ele tinha um restaurante. Que as marmitas não eram preparadas por ele. Me senti desafiada a que ele não pudesse mais repetir isso, e comecei a fazer perguntas estranhas, como por exemplo se havia mais mulheres ou mais homens naquela região.

Qualquer ser humano que transitava por aquelas ruas, certamente estava ligado, de alguma forma, a uma das três grandes empresas que havia naquele lugar e, por isso, eu perdoei o Sr. Lido por ter se interessado primeiro em conhecer o motivo da minha visita e, só depois, o meu nome.

Contente com o fato de que eu estava visitando sua empresa preferida entre as três, o Sr. Lido se encorajou a me contar um pouco sobre cada uma delas. Quando se deu conta que eu tinha um estranho interesse sobre o universo de uma das empresas, dedicada a Call Center, me disse, baixinho, que ali era muito fácil para conseguir um trabalho, que sobravam vagas, mas que não era um lugar para uma menina de família, como eu, por exemplo, trabalhar. As pessoas não duravam e havia de tudo. Obviamente perguntei o que ele queria dizer com de tudo e, depois de alguns segundos pensativo, me disse que havia muitas lésbicas e gays. Que de 2.500 empregados, somente 200 eram homens, homens mesmo.

Enquanto comia e escutava sobre histórias que não deixavam dúvidas, era infeliz a vida no Call Center, olhava para aquelas meninas, que tinham um emprego de pouco glamour até mesmo para o Sr. Lido, me colocava no lugar delas, das vendedoras de coxinhas, dos clientes fiéis do Sr. Lido, dele próprio, das abelhas que me perseguiam, e era, enfim, apesar daquela deliciosa marmita, uma alegria ser estrangeira naquele lugar.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Ismael da Mooca

Foi depois de buscar fotos das principais pensões da Mooca que me sentí confortável para escrever sobre o Ismael. Certamente ele vivia em um quarto simples, porém branco, porém limpo, que combinava com ele. Há quatro anos atrás, recém separado pela terceira vez, Ismael fez o que sempre fazia quando deixava um amor: deu um apartamento para a ex mulher e voltou para a Mooca.

Ismael não parecia indignado e nem que mentia quando dizia que gostava da liberdade de morar em uma pensão. De qualquer forma, tão logo voltou para sua vida solitária na Mooca, começou a buscar sua primeira namorada, de menino: a Rose. 

Ismael falava de Rose com amor e insegurança. Diferente dos seus outros amores, Rose não quis um apartamento dele, quando tinham apenas vinte anos. É que ela nunca quis depender de ninguém, dizia ele. 

Sobre as queixas de Rose, de estar velha e frouxa, Ismael lhe dizia:

¨Eu gosto de você, da sua magreza, da sua dentadura, do seu cabelo seco, eu gosto de você.¨ 

Ismael só queria falar sobre a felicidade de estar novamente com Rose, apesar de que o momento era delicado. Rose queria um tempo pelas grosserias de Ismael. Além disso, diferente dele, Rose não queria viver junto e se incomodava com o fato do Ismael não trabalhar, ou viver de renda, como ele preferiria que eu dissesse. Com cerca de dois mil reais, me disse, trabalhar não fazia sentido.

Sempre que me contava algo que piorava a situação deste amor, Ismael amenizava dizendo que era só uma fase. Para convencer Rose, para me convencer, sobre o futuro da sua história com ela, Ismael me ensinou:

¨Uma estrada de mil kilometros muda. Se não conservar, dá buraco.¨ 


sábado, 18 de abril de 2015

O Ser Amoroso

A morte me convidou a navegar cedo e profundo. Eu acordei afogada, cansada, já não era eu, e nem voltei a ser. Meus amores me quiseram mesmo assim. Aos poucos, me lembrei de uma coisa ou outra que eu era, e, nas raras vezes que algo ainda fazia algum sentido, eu adotava de volta. Minha maior conquista foi recuperar o ser amoroso em mim. 

Apesar de que voltei a sofrer - e sofrí muito - nunca mais estive em águas tão profundas. Me perguntei várias vezes, por dores minhas e alheias, porque um Deus que ama, poderia ter planos tão dolorosos em mente. Porque diabos tinhamos que aprender a conviver com um vazio que arde. Há alguns meses, quase um ano, comecei a perceber que em cada perda, eu recebia de volta mais uma parte do meu ser amoroso. 

O meu amor já não é ingênuo, não é tácito, não é óbvio, e nem tema de amanhã. Ele amadureceu, é urgente, e suporta cada vez menos amar aqueles que são contidos no amor. Eu sou mais feliz desde que, como Djavan, descobrí que Deus abençoa aquele que erra por amor. 

Quando me enterei que havia sido a primeira em chegar, com as lindas flores que tanto perseguí pelas ruas tristes de Montevideo, encontrei a paz que havia ido buscar. Este amor, que já havia sido revelado em suspiros, expectativas, em cartas, sorrisos, olhares, necessitava, agora, ser revelado nos meus pés dormentes, no meu frio, na minha solidão e até no meu precipício financeiro, se é que este último não estraga a poesia. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Nosso amor é Aconcagua

O Aconcagua me emocionou porque me fez lembrar do meu amor. Bem que eu poderia ter chorado de frio - vai ver teve um pouco disto também - mas foi mais de amor. 

O meu amor achava que eu era uma espécie de Aconcagua porque, sem saber se ele era um escalador profissional ou um turista desavisado, eu não o deixava me escalar. Era o Aconcagua com medo de uma pessoa. 

O nosso amor é Aconcagua. Que desce, sobe, congela, derrete. Que sempre é outro, ao mesmo tempo que permanece o mesmo. O nosso amor é Aconcagua porque parece desentupir o nariz, renovar a pele e o espírito. É Aconcagua porque toca o céu, porque é difícil e é possível e porque só o caminho já vale a viagem. É Aconcagua porque até mesmo quando não o vemos - porque às vezes há neblina demais - ele continua sendo um dos maiores do mundo. 

Os pés da Vó Ilda

Olhei antes pros pés. Descobri recentemente como é divertido entrar pela janela. Só que desta vez, parei nos pés. Eram os pés da vó Ilda e eu não queria subir meus olhos pra me decepcionar. 

Estes pés são pés da vó Ilda, eu os conheço bem. Tem as veias azuis pulando, mas não é feio; o mesmo tom de pele; as bolinhas brancas que ela também tinha nos braços e nas mãos  - e que eu costumava dizer à ela que se pareciam a uma linguiça -, e também o piso firme, distanciado, de quem não quer cair. Um sapatinho sempre colorido, sempre moderninho, sem abrir mão do conforto. O vestido, colorido também, com algo de arte e alegria. Definitivamente, era o pé da vó Ilda. 

Se não fosse pela canela, que estava muito grossa para ser a da vó Ilda; as solas, gastas demais e sujas demais, para ser dela; o tamanho deste pé, que seguramente não era 35, seria o pé da minha avó. Seria o pé da vó Ilda se a alegria estivesse toda no sapato ou toda no vestido. Nos dois, não era ela. 


domingo, 27 de julho de 2014

Passarinho

Não seja egoísta porque assim, eu te desgosto. Assim, te vejo feio. Você me chamava de passarinho, e me dava delicados tapinhas no bumbum quando me via caindo. Eu recuperava o voo e com a suavidade de sempre, te alegrava.

Agora, passarinho na gaiola, gaiola meio aberta, meio fechada. Pra sair, dói. Pra ficar, dói. Você aparece de repente, me joga um alpiste. Eu como. As vezes, na maioria delas, durmo com fome. Quando você vem, te olho nos olhos, e dói neste corpinho, de passarinho, pensar que você vê motivações ocultas em mim. Como se eu pudesse picar você, como se eu pudesse envenenar você. Não sou aranha. Não sou cobra. Sou passarinho.

sábado, 19 de abril de 2014

Bárbara

Como uma mãe que mima o filho
Você nunca me diz que não
Se não é bom
Se te aborrece
Se não é justo
Se já é tarde
Você arregala seu lindo par de olhos quase-verdes
Olha dentro dos marrons meus
(eu descubro sua farsa)
Então você olha pro chão
Me da entre 4 e 6 tapinhas no ombro
Ou um desajeitado e rápido cafuné no cabelo
Sorri um sorriso tímido, como os meus
Me olha outra vez
(um olhar de quem foi descoberta)
Me diz que sim
Balança a cabeça que sim
Arregala mais os olhos que sim:
É uma mentirosa
E um ser humano perfeito.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Ocupação: Lixo Espacial

Se eu soubesse que tudo que encontraria de sensacional, baixando na estação da Liberdade, seria uma porta bananas amarelo, teria seguido mais umas tantas ouvindo àquele senhor, àquele bom informante aposentado, que já havia sido da Rússia, da Austrália, da Argentina e da Irlanda e que hoje, de volta a São Paulo, declarava sua profissão como se fosse um segundo nome:
- Sou Luiz, Lixo Espacial.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Meu vento de veleiro

- Não te irrita que a gente esteja parado aqui? Há 20 minutos atrás havia vento, tanto vento que corríamos pra qualquer lado, até ignoramos nosso destino, a vista era mais linda, fazia menos calor. Na verdade eu nem sentia calor. E agora estamos aqui.
- Não, não me irrita. Não me irrita porque eu sei que ele volta. Uma hora ele vai voltar. É impossível que ele não volte, como também é impossível que ele fique pra sempre.
- Me bate um desespero.
- É um pouco entediante. Na maioria das vezes que acontece isso comigo, meu celular está sem sinal, não tenho companhia. Mas aí o vento volta, sempre e de repente, e então eu percebo que é melhor assim. É melhor assim do que ter vento sempre. Meu vento é melhor que o deles – me conta ele, bem cômodo dentro do seu mini-veleiro, apontando para uma lancha que passa sem se preocupar com o vento.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Irene

O que gostava de fazer Irene? Ela que nunca sorria, e se sorria, era só porque a pronuncia pedia. Ou por ironia, muitas vezes, quando a nossa não lhe satisfazia. Que bem pronunciava Irene! Que bem pronunciava Irene quando me repetia, indignada, que eu pronunciava mal a letra "T".

Sinto falta de Irene nas segundas e nas quartas. E também nos domingos a noite, quando, automaticamente, começo a pensar o que me perguntará Irene. O que responderei a Irene. Como diabos pronunciar a "T" melhor pra surpreendê-la. Ambrose Bierce, Irene, Edgar Allan Poe, Irene, BBC, Irene, sempre Irene, Irene, Irene.

Não me despedi de Irene como gostaria, mas como deveria. Vi que Irene, ao entregar as notas, olhou com olhar de preferência e quase amizade para mim e Julieta. Ela nunca demonstraria preferência para um mau aluno. Isso era melhor que qualquer nota pra mim. Enquanto ia embora, tentando guardar algumas últimas imagens dela, percebi que Irene não viu quanto de amor havia no último olhar que dei a ela. Ela estava paralizada, excitada, em transe, escutando dois alunos falando na sua lingua preferida. Pronta pra interrompê-los ao primeiro sinal de equivoco. Como uma leoa. A leoa da língua estrangeira.

Tumbeiro não é como Irene. Tumbeiro tem um sorriso complacente e não expressa indignação quando escuta um erro em sua língua preferida. Quiçá, esta nem seja sua língua preferida. Pode ser que um dia Tumbeiro se atrase 5 ou 10 minutos e entre sorrindo.  Nós sorriríamos também. Como bobos, pensaria Irene. Tumbeiro não se sente invadida quando lhe fazemos perguntas pessoais. O que diria Irene sobre termos o e-mail pessoal de Tumbeiro? Temos desde a primeira semana. Todos sabemos que Tumbeiro é alérgica aos chocolates, usava arquinho quando criança e odiava a comida de Londres. Odiar é uma palavra minha. Tumbeiro nunca diria algo assim. Tumbeiro era sempre suave, doce, leve, nova, ia pelas beiradas. Ao contrário de Irene, dura, velha, direta.

Mas eu gostava mais de Irene.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Carlos do Portal

Ao lado do Carlos, o Carlos de cima, eu descia a ladeira do Portal da Saudade fazendo o que sempre faço quando conheço alguém que me parece mais interessante do que eu: perguntas. E em uma sequência tão rápida e tão interessada, que é impossível que a pessoa tenha tempo para descobrir mais de mim que meu nome ou minha idade - é uma bobagem querer protagonismo quando você tem na sua frente alguém que pode matar várias das suas curiosidades mais loucas.

Assim como os detetives e os funcionários de call center, os funcionários de cemitério sempre me chamaram muita atenção. Especificamente aqueles com funções que incluíam a solidão e a valentia, como o Carlos, que virava a noite, sempre sozinho, ali. O guardião da paz e da ordem geral no Portal.

Nosso primeiro contato foi pelo interfone. Já era mais que seis da tarde e o portão estava fechado. O Carlos me olhava pela câmera, lá de cima. Eu, lá de baixo, com flores nas mãos e lágrimas nos olhos, formulava frases diferentes para pedir a única coisa que eu queria dele: cinco minutos para subir a ladeira e deixar flores novas para meu irmão. A voz inocente de Carlos amoleceu quando eu disse a palavra "prometo".

Mais ou menos neste instante, surgiu o outro Carlos, o Carlos de baixo ou o Carlos do carro, que saia do cemitério e deu meia volta para me levar lá em cima. Quando chegamos, ele me disse que me esperaria e me levaria até o portão novamente. Eu o agradeci, mas recusei, e ele me ignorou, permanecendo dentro do carro com os faróis ligados. 

O Carlos de cima me alertou sobre os perigos possíveis do Carlos de baixo. Por minha conta, eu pensava sobre os perigos de ambos os Carlos naquele cemitério vazio. Anoitecia enquanto eu caminhava para deixar as flores para meu irmão. No caminho, as flores de plástico estavam por toda parte, balançando sem cheiro com o vento, e disfarçando a data da última visita que aquelas pessoas, ali embaixo da terra, receberam. Um mês? Dez anos? Quem veio aqui visitá-los? Era impossível saber. E essa curiosidade estranha e até um pouco cruel, era comum por ali. Ambos os Carlos perguntaram sobre minha frequência de visitas: "menos do que eu gostaria" era a resposta mais minha possível. Era meu "não avance" sutil, misterioso e sobretudo real.

Dias depois tentei comprovar as histórias bizarras que o Carlos de cima me contava enquanto caminhávamos pelas flores de plástico. Aquelas, todas, que não sairam mais da minha cabeça.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Dor Parte I

O que se supõe que tenho por dentro
Pra não dizer e também não sentir?
Tem algo por trás destes sorrisos amarelos
Que te olham nos olhos
E te suplicam pra calar


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

"Echar de menos es una soledad acompañada.
Es cuando el amor no se ha ido pero el amado si.
Echar de menos es amar un pasado que no pasó,
es recusar un presente que nos duele,
es no ver el futuro que nos invita.
Echar de menos es sentir que existe lo que no existe más.
Echar de menos es el infierno de los que perdieron,
es el dolor de los que se quedaron atrás,
es el gusto de la muerte en la boca de los que se quedaron

Solo una persona desea echar de menos: Aquella que nunca amó.
Y ese es el mayor de los sufrimientos:
No tener a quien echar de menos, pasar por la vida y no vivir.
El mayor sufrimiento es nunca haber sufrido!"

(Pablo Neruda)

sábado, 14 de setembro de 2013

A tristeza sempre me trás lápis, papel e borracha. Nada pode me inspirar mais do que a dor. Quiçá nossas mil variações de pollo. 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Meu amigo coreano

Na Echeverría
Sentada e com frio
Eu estava no meio fio
Da praça
Quando cê me viu

- Vem cá - Você disse, com seu bracinho fino e frágil
- Vem cá - Você disse, me olhando com seus olhinhos pequenininhos de japones, ou chines, ou... Sei lá
- Vem cá - Você disse, finalmente falando, com voz, mexendo sua boca, que já não tinha alguns dentes

De repente dividiamos o mesmo banco
E até dividiriamos um mate, se eu tivesse aceitado

Você era coreano, descobrí:
80 anos e cheio de manias
Ainda por cima, tinha uma mulher louca
Que não quis viver no Brasil
Porque só tinha negro e macaco (!)

Em alguns instantes estava você mais próximo
Tapeando (essa palavra existe?) minhas mãos
E falando sobre meu futuro

Nada te irritava:
Nem as crianças que gritavam perto da gente
Nem o preço absurdo do mate que você comprou
Nem mesmo o fato de eu rir de quase todas as suas adivinhações

Quando a apendicite chegou, quase dois anos depois, me lembrei de você
E meses depois que me recuperei, estava de volta a Echeverría
Dessa vez não fazia frio e a praça estava mais cheia que nunca
Entre 9 e 11 da manhã, te procurei em cada banquinho
Onde estaria você, que não na praça, entre 9 e 11?
Teria perdido a hora? Largado a mania de horário? Enjoado daquela praça? Virado viúvo justo naquela semana? Se mudado para o Rio de Janeiro?

A parte de adivinhações fica pra você
Dia desses te procuro outra vez,
Meu velho amigo coreano da praça de Belgrano.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Devagarim

Devagarim você chegava
Me olhava
E buscava
Qualquer forma de entrar
Em mim
Um sorriso meio aberto
- Você tirou o aparelho?
Uma frase meio solta
- Me explica isso melhor?
Degararim, assim, dessa tua maneira
Quase que eu nem te notava

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"Meu poeta eu hoje estou contente
Todo mundo de repente ficou lindo
Ficou lindo de morrer
Eu hoje estou me rindo
Nem eu mesma sei de que
Porque eu recebi
Uma cartinhazinha de você."

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu."

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

"- É pecado sonhar?
- Não, Capitu. Nunca foi.
- Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
- Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer."

Dom Casmurro

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Se você está pensando
Que eu estou me importando
É claro que eu estou
Eu não sou feito essa gente
Que ama e de repente
Tchau, e se acabou
Não, eu sofri muito, demais
Porque a minha grande paz
Vinha toda de você
É, pus você alto demais
Com cuidados tão legais
Que nem vi você descer

Mas a gente continua
Sai e anda na rua
Entre a multidão
Os amigos dão mão forte
E há nada que conforte
Mais que o violão
É, vou cuidar melhor de mim
Vou fazer meu samba assim
Bem alegre e natural
É, você vai saber de mim
Muita nota no Ibrahim
Muito nome no jornal
Ri melhor quem ri no fim
Ri melhor quem ri no fim

domingo, 6 de janeiro de 2013

Eu, pão com ovo

Hoje eu me lembrei daquele dia que eu acordei cedo, fiquei te olhando e sua cara dormida me deu a ideia de te fazer um pão com ovo. Eu levantei, me banhei e fiz. Levei na cama pra você. Te acordei, esperei você resmungar que estava cedo e que você tinha sono e depois, ignorando tudo o que você dizia, te apresentei meu pão com ovo como se fosse um grande banquete. Te disse que aquela era minha especialidade e te disse tudo isso bem séria. Aquela merda é mesmo das melhores coisas que eu sei fazer na cozinha. Você me olhou bem no olho como se esperasse eu rir e falar que estava brincando. Eu não fiz nada disso e continuei te olhando. Você então pegou o pão e enquanto o avaliava bem de perto, sorriu pra mim com uma risada apaixonada que me chamava de louca mas que também me confessava que me amava mesmo assim. Aí eu me lembrei que você me deu essa mesma risada em cabo frio, naquele verão que nos descobrimos. Num daqueles dias, numa daquelas nossas voltas, pra lá e pra cá, eu pedi pra você fechar os olhos que eu tinha uma surpresa. Você fechou e quando abriu eu estava com dois churros de doce de leite e uma coca cola nas mãos, pra gente dividir. Você riu assim, essa sua risada do pão com ovo e seu sorriso me dizia: você é louca e eu to me apaixonando por você.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Se eu fosse um padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções.

Não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
… a um belo poema – ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Mario Quintana

domingo, 23 de setembro de 2012

Das Perdas

Das perdas inevitáveis as que provoquei
As que me escolheram e as que escolhí
As que ainda não aceito e as que já aceitei
Gente que pra mim morreu ou gente pra quem eu morri

Uma hora marcada, uma dor que não passa, o melhor da festa
Uma consulta dentária, o encanto do início, uma pessoa bacana
Todo o resto que escapou de mim e pra não voltar mais

O beijo não dado, o palavrão, uma doença
E tudo aquilo que a perda não perdoou

Pior que a perda, só perda com culpa
Ou, em outro caso, a perda pura
Pra quem não sabe perder.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

Medo de Anjo

Os dias estavam quentes e as noites, impraticáveis. Lá na frente um pouco menos, já que o motorista achou conveniente dirigir com a porta dianteira aberta. Foi lá que eu sentei, bem pertinho da trocadora.
Em uma das milhões de curvas que fizemos, saimos bem em frente a um cemitério, que se eu me lembro bem fica em Botafogo. Reparei que a trocadora olhava atentamente para o cemitério com a sombrancelha franzida, como quem está bravo, ou com medo, ou indignado. Se eu a conhecesse poderia supor qual dos três casos era o dela, mas não dava e eu iria morrer sem saber. Até que ela resolve perguntar para o motorista: "Nél, você já viu esses anjo do cemitério? Já reparou, Nél? Eu tenho um medo. Me arrepia todinha. Olha aqui!" - diz ela, estendendo os braços em direção ao motorista, que ri sem olhar pra ela.
Enquanto o motorista ri - e eu também rio - do que ela fala, ela continua olhando com o mesmo olhar e a mesma sombrancelha para o cemitério e desabafa: "Eu tenho medo daqueles ali óh, que tem os braços abertos assim" - explica ela, olhando para um anjo específico e imitando-o ao mesmo tempo.
O motorista da uma olhadinha para o cemitério, olha novamente para a rua e rí. Então ela continua: "Sabe Nél, que eu tenho mais medo dos anjo do que dos defunto? Vai ver se me aparecesse um defunto eu batia até papo. Mas se me aparece um anjo desses aí... Eu me cago, Nél. Eu me cago mesmo, sem exagero".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Valores na calçada de Ipanema

Apressada que só, pelas calçadas quentes de Ipanema uma babá negra e quase gorda empurrava uma menina-neném enquanto lhe ensinava: - Temos que nos apressar, Vi. Você deve aprender que quando se combina um horário deve-se chegar na hora. Até antes, se der. Chegar atrasado é falta de educação, você sabe. Ninguém gosta de esperar. Ninguém gosta. Esperar é muito chato, você sabe. É das coisas mais feias que tem - dizia ela, enquanto a menina-neném tirava um cochilo gostoso.

domingo, 11 de setembro de 2011

5 e pouca

5 e pouca e eu na sala do embarque. Eu e mil sacolas do duty free, homens de negócios e uma duzia de brasileiros gritando. No meio disso e de um pouco mais é que eu deixo litros e litros de lágrimas. Enquanto olho o sol se pondo, da janela, imagino você chegando na estação de Juramento, de terno, susurrando alguma ofensa para um gordo que te atrapalha a subir a escada. Posso imaginar você caminhando pela Echeverría com sua mochila nas costas, prestes a me encontrar no numero 18**. Lá onde eu tenho esperado todos os dias pelas 5 e pouca. Meu horário preferido do dia. Quando o céu está quase sem cor... Amarelo, quase cinza. Não poderia ter horário mais sacrificante para voltar pra casa sozinha. Isso porque esse horário tem a sua cara. Tem a nossa cara. E nem uma pringles, nem o passageiro Rochas que acaba de perder seu voo, nada, nada pode me fazer pensar em outra coisa.
Daria tudo pra dividir uma promo lleve essa noite com você.
Pensando em você,
A.

sábado, 6 de agosto de 2011

Contradição

''No hay que tenerle miedo a la contradicción porque es la prueba de que el mundo se mueve de que la realidad cambia...''

Galeano

domingo, 12 de setembro de 2010

Tudo culpa da hóstia!

Quando tinha uns 9 anos, o meu colégio resolveu propor para os alunos as aulas de catecismo, para podermos fazer a primeira comunhão. Lembro que fiquei pensando se deveria ou não (e estava tendendo ao não) até ficar sabendo que assim que completasse a primeira comunhão, iria poder comer a hóstia, aquele negocinho branco e fino que o padre entregava la na frente das missas aos domingos e as pessoas faziam filas para receber. Eu achava que aquilo era gostoso, que só podia ser muito gostoso e me sentia enganada e indignada quando me diziam que aquela coisinha tão requisitada não havia gosto algum. Não podia ser. Eu não entendia porque as pessoas formariam filas para provar algo sem gosto, então, pela curiosidade de poder entrar na fila e finalmente comprovar minha teoria, entreguei minha ficha para participar das aulas.

Eram, se bem me lembro, aos sábados de manhã, o que pareceria um martírio hoje, mas na época não foi nada penoso, pelo contrário, todos meus amigos estavam lá e nos divertíamos muito nos vendo uma vez a mais na semana para rir e dançar. As musiquinhas da igreja sempre me pareceram bastante engraçadas, principalmente aquelas que nos convidavam a dançar, como a minha preferida, que diz “quando o espírito de deus retoma em mim eu danço como o Rei Davi”. Até hoje me lembro bem de todas, ou quase todas, aquelas músicas.

Também aprendemos lá, como deveríamos andar durante a fila até receber a hóstia. Mas nos ensaios, pra minha decepção, não havia hóstias. As professoras faziam de conta pegar uma hóstia e dar em nossas mãos, que continuavam vazias. Aquela cena, repetidamente, só aumentava minha curiosidade.

Como eu sempre tive dificuldade com direções e comandos, nunca sabia a posição das mãos e qual delas ficava por cima, a direita ou a esquerda. O que eu sei é que sempre copiei a pessoa da frente quando dava, ou a pessoa de trás, quando não dava.

Por fim, houve o dia da confissão. Em que aquelas criancinhas de 9, 10 anos tinham que confessar seus pecados para o padre. Eu fiquei pensando quase um dia inteiro no que poderia dizer pra ele e até ensaiei no espelho. Por fim, chegou minha vez. Contei meus pecadinhos, vários deles, ele sorriu, me mandou rezar algumas coisas e me desejou boa sorte.

Lembro que o último ensaio caiu bem no dia do meu aniversário e foi na Igreja da Matriz pela primeira vez. Já estávamos todos bem treinadinhos e tudo ocorreu bem. Nesse ensaio teve hóstia. Ela era mesmo sem gosto, sem gosto nenhum, e pior, ela ainda grudava no céu da boca. Uma decepção total.

Cheguei em casa e disse que não queria ir. Inventei mil desculpas. Nenhuma colou.

A noite eu estava lá na porta da Igreja da Matriz, toda de branco e arquinho azul no cabelo. E depois na fila, copiando as mãos que estavam na frente e também as que estavam atrás. Mais tarde, provando uma bela rodada de pizza no Sabor e Lenha, dividindo minha presença com meus familiares na mesa e com meus amiguinhos, agora católicos, na parte de recreação da pizzaria. Por último, chegando em casa, ainda sem entender o mistério da hostia eu já era católica.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

S-E-R

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dinheiro feliz





Ian, desde muito novo, sempre mostrou seu fascínio pelo mundo do dinheiro e dos negócios bem feitos. Me lembro que quando ainda nem sabia falar direito já chamava O Caixa 24 horas de ''Casinha Feliz'', porque sempre que seu avô parava lá, dava dez reais para ele.
Quando ele cresceu um pouco, e tinha seus 7 anos, viu na TV que lavar dinheiro deixou algumas pessoas ricas, apesar de ser algo proibido. Com a inocência que tinha, pediu para sua irmã mais nova pegar suas moedas antigas e descer até a garagem. Quando sua irmãzinha chegou lá, Ian já estava se acomodando no chão com um sabão, um balde de água e uma bacia grande. Logo ele começou a jogar a água no balde, jogou as moedas nele, e depois as lavou, uma por uma com sabão. Sua irmã, curiosa que sempre foi, quis saber como e quando o dinheiro iria aparecer, mas Ian disse apenas que ele apareceria, talvez escondido, porque era proibido.
Mais tarde, quando Ian fez 10 anos, resolveu juntar dólares, na época do 1x1. Ele ia catando moedas e notinhas pela casa e por onde mais encontrasse, e, depois, quando já tinha uma quantidade suficiente para encher as mãos, juntas, sempre em formato de concha, ele saia em direção a loja de câmbio, que ficava localizada na principal avenida de Barra Mansa. Quase todos os dias Ian repetia este trajeto. Em um deles, sua mãe, passando de carro pela avenida, viu Ian, pequenininho mas cheio de postura, como um homem de negócios, olhando confiante e com as mãos de concha, cheias de moedas. Ela foi chegando o carro perto da calçada, abriu o vidro, se debruçou no banco carona e perguntou com um olhar curioso:
- O que cê fazendo, mê filho?
- Estou acreditando no dólar, mamãe.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Palavra feia




Alice andava muito nervosa, porque naquela manhã ia iniciar sua vida na escola. Corria de um espelho a outro, pela casa inteira, e numa dessas idas e vindas tropeçou numa bolsa e despencou esparramada pelo chão. Não chorou. Perguntou:
- O que é que esta merda está fazendo aqui?
A mãe ensinou:
- Filhota, isso não se diz.
E Alice, do chão, quis saber:
- Então para que existem, mamãe, as palavras que a gente não pode dizer?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Baixinho

Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho,
amado (...)


Mario Quintana

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O nascimento

O hospital público, localizado no bairro mais metido do Rio de Janeiro, atendia a mil pacientes por dia. Eram, todos, pobres ou palpérrimos.
Um médico de plantão contou:
- Semana passada, tive de escolher entre duas meninas recém nascidas. Aqui só tem um respirador artificial. Elas chegaram ao mesmo tempo, já moribundas, e eu tive que decidir qual ia viver.
Eu não sou ninguém para decidir isso, pensou o médico: que Deus o decida.
Mas Deus não disse nada.
Escolhesse quem escolhesse, o médico ia cometer um crime. Se não fizesse nada, cometeria dois.
Não havia tempo para nada. As meninas estavam nas últimas, já indo embora deste mundo.
O médico fechou os olhos. Uma foi condenada e morrer, a outra foi condenada a viver.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Vendedor de ilusões

Eu disse pro moço que era ilusão, ilusão que tava me faltando. Ele arregalou aqueles olhos meio verdes meio amarelos, como se eu tivesse falando uma bobagem grande. Perguntou, com cara de sabido, se sei viver no mundo real. Olhei com a cara de boba que tenho e disse:

- Sei não, dá pra mim só um pouquinho de ilusão!

Beleza

Outra beleza
Outra beleza você tem
Que pôr cama e mesa
E mais beleza no mundo também

Elogio da Imaginação

Algum tempo atrás, a BBC perguntou às crianças britânicas se preferiam a televisão ou o rádio. Quase todas escolheram a televisão, o que foi algo assim como constatar que o os gatos miam e os mortos não respiram. Mas entre as poucas crianças que escolheram o rádio, houve uma que explicou:
- Gosto mais do rádio, porque pelo rádio vejo paisagens mais bonitas.


Eduardo Galeano

AFOGADO

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo.
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Day

Som, Orelha, Olho. Coberta, pé e chão. Maçaneta, água, escova, pasta, chuveiro, água, shampoo. Toalha, perfume, água. Maçaneta, roupas, espelho, espelho e espelho. Pão, mate. Elevador, porteiro, calçada. Metrô, roleta, bilhete, vagão-mulher, roleta, rua. Hall, roleta, elevador, sala. Fome, água, sabão, carne e coca-cola. Portaria, porteiro, elevador. Escova, pasta e água. Fechadura, papéis, telefone. Noite, fechadura, fome. Hall, roleta, elevador, auditório, poltrona. Metrô, calçada, porteiro, elevador, fechadura, maçaneta, pijama, chinelo, corredor. Maçaneta, tranca, chuveiro, água e shampoo, água, pasta, toalha. Destranca, corredor, maçaneta, cama. Livro, sono.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Proibido Rir

As antigas festas dos ciclos da natureza se chamam agora Natal e Semana Santa, e já não são homenagens aos deuses pagãos, mas solenes rituais de veneração à divindade que ocupou seus dias e se apoderou de seus simbolos.
A Festa Hilária, herdada ou inventada por Roma, saudava a chegada da primavera. A deusa Cibele se banhava no rio, convocando a chuva e a fertilidade dos campos, enquanto os romanos, vestidos com roupas extravagantes, capotavam de rir. Todos debochavam de todos, e não havia no mundo nada ou ninguém que não fosse digno de servir de motivo para rir.
Por decisão da Igreja Católica, essa festa pagã da hilaridade que rindo celebrava a ressureição da primavera, coincide a cada março, dia mais, dia menos com a ressurreição de Jesus, de que os evangelhos nao registram um unico riso.
E por decisão da igreja, o Vaticano foi construido no exato lugar onde a alegria culminava. Na vasta praça onde ressoavam gargalhadas da multidão, agora ouve a voz grave do Papa, recitando as páginas da biblia, um livro do qual ninguém nunca ri.

Procê lembrar de mim

Uma da manhã
Você está andando em meu cérebro
Além disso o que fez hoje?
Essa noite está fria...
Eu gostaria de cobrí-lo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Carroça

Certa manhã, meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque e eu aceitei com prazer. Ele se deteve numa clareira e depois de um pequeno silêncio me perguntou: - Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa? Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi: - Estou ouvindo um barulho de carroça. - Isso mesmo, disse meu pai, é uma carroça vazia ... Perguntei ao meu pai: Como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos? Ora - respondeu meu pai - É muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça maior é o barulho que faz.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Meiguice com graça - Real

- Você tem razao. Ele esta me esnobando sim. Quer saber? Se ele não me ligar ate a noite vou mandar uma mensagem mal educada pra ele.
- O que voce vai mandar?
-"X" , quando quiser, me ligue.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Escrito em uma parede, na rua.

Mulher que não enche o saco é homem. A cada dia morrem dezoito mil mulheres e a minha não tem nem dor de cabeça.
O lugar da mulher, é em casa e de pé quebrado.
Linda como mulher do outro.
Se se calassem um momento poderia lhes dizer o quanto as amo.
Quando não tem cobram, te fazer pagar.
Se as mulheres fossem necessárias, Deus teria uma.



Feliz dia da mulher.

Irmandade

A Sra Margarita Canales de Gutierrez da graças a Virgem Nossa Senhora de Guadalupe, porque no dia 10 de janeiro de 1914 as tropas de Pancho Villa entraram em Ojinaga e violaram sua irmã, e ela não.

terça-feira, 2 de março de 2010

Pecadinho

Duas velhas conversavam baixinho - meu ouvido tinha a permissao de estar ali porque uma das velhas era minha avo - as duas comentavam que so havia velhos naquele bairro, por todas as partes, e que havia um, em especial, que era no minimo estranho. Elas juntaram informacoes ate completarem o quebra cabeca: o velho tinha dois apartamentos em um mesmo andar, e so andava grudado com uma mulher de cada lado. Assim, dois apartamentos, duas mulheres.
- Todos os dias - comentavam - ele fica dando voltas por ai com as duas, uma de cada lado. Eu tenho pra mim que ele namora cada dia uma, cada dia em um apartamento.
Uma riu tampando a boca, enquanto a outra fazia sorrisinhos de sem graca e dizia: "Deus me perdoe".

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O direito de sonhar

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede.
Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.
Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.
O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.
O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV.
A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.
Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.
Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.
Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.
Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.
Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.
O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.
Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.
Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua.
Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.
A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.
A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.
Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.
Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.
A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro.
A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte".
Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tristeza azul

"Se bem me lembro, em toda a Bíblia não há nenhuma risada. O mundo é um vale de lágrimas, os que mais sofrem são os eleitos para subir ao Céu"

Culto

"Supõe-se que o intelectual é aquele que é capaz de entender, mas eu prefiro aquele que é capaz de compreender. Culto não é quem acumula mais conhecimentos, porque então não haverá ninguém mais culto do que um computador. Culto é aquele que sabe escutar."

Eduardo Galeano

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Tom Zé - A felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha
O ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor.

domingo, 3 de janeiro de 2010

LIVRO DOS ABRAÇOS - GALEANO

O catecismo me ensinou, na infância, a fazer o bem por interesse e não fazer o mal por medo. Deus me oferecia castigos e recompensas, me ameaçava com o inferno e me prometia o céu; e eu temia e acreditava.
Passaram-se os anos. Eu já não temo nem creio. E, em todo caso – penso – se mereço ser assado cozido no caldeirão do inferno, condenado ao fogo lento e eterno, que assim seja. Assim me salvarei do purgatório, que está cheio de horríveis turistas da classe média; e no final das contas, se fará justiça.
Sinceramente: merecer, mereço. Nunca matei ninguém, é verdade, mas por falta de coragem ou de tempo, e não por falta de querer. Não vou à missa aos domingos, nem nos dias de guarda. Cobicei quase todas as mulheres de meus próximos, exceto as feias, e assim violei, pelo menos em intenção, a propriedade privada que Deus pessoalmente sacramentou nas tábuas de Moisés: Não cobiçarás a mulher de teu próximo nem seu touro, nem seu asno... E como se fosse pouco, com premeditação e deslealdade cometi o ato do amor sem o nobre propósito de reproduzir a mão-de-obra. Sei muito bem que o pecado carnal não é bem visto no céu; mas desconfio que Deus condena o que ignora.

Você, eu e os passarinhos



 

Os passarinhos cantam nosso amor toda vez que nós lembramos da gente.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Um amor que anda sem relógio

Eu quero você
E o que eu quero
é pra além de amor.
Quero somar o que nunca seria inteiro
sozinho.
Pode ser que agora não.
Aliás,
sejamos preguiçosos quanto a isto:
Não há porquê ter pressa,
o ponteiro não conta amor.
Me basta saber da sua vida
Por dentro fazer parte dela.
É que eu sinto você
e você me sente também.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A exigencia - REAL

Ursula andava na rua a noite quando uma mulher-assaltante virou e disse:
- Garota, nao corre nao que eu te dou um teco! Me passa o celular.
Ursula foi logo tirando o celular ferrado do bolso, e o estendeu na palma da mao, bem aberta.
A mulher avaliou, olhou com cara de desprezo e disse:
- Quero nao. Pode guardar!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Cometo erros e fico fora de controle. Mas se você não consegue lidar comigo na pior, não merece meu melhor" (Marilyn Monroe)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

A tosse engraçada

A tosse nunca foi tao engraçada! A gripe suina esta enterrando defuntos e desenterrando risos. Argentinos, europeus, americanos, todos em baixa...
Tusso quando rio, no Rio eu rio quando tossem sem tampar a boca. Boca com mascara, do dentista, do Dr... que estao evitando beijar na boca.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

sábado, 27 de junho de 2009

Michael Jackson

"Se uma pequena proporção dos elogios feitos agora que ele morreu tivessem sido feitos no ano passado, talvez ele ainda estivesse conosco"

Robin Gibb, dos Bee Gees

quinta-feira, 4 de junho de 2009

F. Nietzsche

Não fiques muito embaixo
Não subas muito alto
O mundo é sempre mais belo
Visto à meia altura.

A Gaia Ciência

sábado, 30 de maio de 2009

E. Galeano

Fundação do inferno:

A igreja católica inventou o inferno e também inventou o diabo.
O Antigo testamento não mencionava essa churrasqueira perpétua, nem aparecia em suas páginas esse monstro que cheira a enxofre, usa tridente e tem chifres e rabo, garras e unhas, patas de bode e asas de dragão.

Mas a igreja se perguntou: o que será da recompensa sem o castigo? O que será da obediência sem o medo?
E se perguntou: o que será de Deus sem o Diabo? O que será do Bem sem o Mal?
E a igreja comprovou que a ameaça do Inferno é mais eficaz do que a promesa do Céu, e desde então seus doutores e santos padres nos aterrorizam anuncionando o suplício do fogo nos abismos onde reina o Maligno.
No ano de 2007, o papa Bento XVI confirmou:
- O inferno existe. E é eterno.

Espelhos.

sábado, 16 de maio de 2009

Engoli

Os ecos começaram...
- Engula, engula, engula, engula! O remédio, a água, eles!
Está na hora da engolida obrigatória.

Dia a dia

Barulho, olhos, hora, sol
Escova, pasta, toalha, banho.
Roupa, café, pão. Escova denovo.
Espelho, cabelo, maquiagem.
Horário, pernas, onibus, barca, faculdade.
Misto quente, dinheiro, amigos.
Livros, canetas, quadros.
Prato, picanha, batata
Pernas, calçadas, barca.
Lua, cama, cobertor, fim.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A beleza da inocência

Cheguei maltratada. Sem esmalte na unha, sombrancelha por fazer, cabelo para ajeitar.
Só faltava o cabelo, quando Soli - apelido que eu mesma criei - caminhou-se para um calendário. E ficou observando alguma coisa durante alguns minutos. Não demorou muito ela veio, seguida de um sorrido ingenuo no rosto, dizendo: - Hoje pode cortar, é lua crescente. Já já cresce.
Eu achei engraçado, mas quis entrar na brincadeira e resolví dar corda, então perguntei em tom interessado o que aconteceria se estivessemos na lua minguante. Ela sorriu, fez cara de professora e disse: - Ué Alice, ele minguava, né?!