Ao lado do Carlos, o Carlos de cima, eu descia a ladeira do Portal da Saudade fazendo o que sempre faço quando conheço alguém que me parece mais interessante do que eu: perguntas. E em uma sequência tão rápida e tão interessada, que é impossível que a pessoa tenha tempo para descobrir mais de mim que meu nome ou minha idade - é uma bobagem querer protagonismo quando você tem na sua frente alguém que pode matar várias das suas curiosidades mais loucas.
Assim como os detetives e os funcionários de call center, os funcionários de cemitério sempre me chamaram muita atenção. Especificamente aqueles com funções que incluíam a solidão e a valentia, como o Carlos, que virava a noite, sempre sozinho, ali. O guardião da paz e da ordem geral no Portal.
Nosso primeiro contato foi pelo interfone. Já era mais que seis da tarde e o portão estava fechado. O Carlos me olhava pela câmera, lá de cima. Eu, lá de baixo, com flores nas mãos e lágrimas nos olhos, formulava frases diferentes para pedir a única coisa que eu queria dele: cinco minutos para subir a ladeira e deixar flores novas para meu irmão. A voz inocente de Carlos amoleceu quando eu disse a palavra "prometo".
Mais ou menos neste instante, surgiu o outro Carlos, o Carlos de baixo ou o Carlos do carro, que saia do cemitério e deu meia volta para me levar lá em cima. Quando chegamos, ele me disse que me esperaria e me levaria até o portão novamente. Eu o agradeci, mas recusei, e ele me ignorou, permanecendo dentro do carro com os faróis ligados.
O Carlos de cima me alertou sobre os perigos possíveis do Carlos de baixo. Por minha conta, eu pensava sobre os perigos de ambos os Carlos naquele cemitério vazio. Anoitecia enquanto eu caminhava para deixar as flores para meu irmão. No caminho, as flores de plástico estavam por toda parte, balançando sem cheiro com o vento, e disfarçando a data da última visita que aquelas pessoas, ali embaixo da terra, receberam. Um mês? Dez anos? Quem veio aqui visitá-los? Era impossível saber. E essa curiosidade estranha e até um pouco cruel, era comum por ali. Ambos os Carlos perguntaram sobre minha frequência de visitas: "menos do que eu gostaria" era a resposta mais minha possível. Era meu "não avance" sutil, misterioso e sobretudo real.
Dias depois tentei comprovar as histórias bizarras que o Carlos de cima me contava enquanto caminhávamos pelas flores de plástico. Aquelas, todas, que não sairam mais da minha cabeça.
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