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quarta-feira, 16 de junho de 2010

O nascimento

O hospital público, localizado no bairro mais metido do Rio de Janeiro, atendia a mil pacientes por dia. Eram, todos, pobres ou palpérrimos.
Um médico de plantão contou:
- Semana passada, tive de escolher entre duas meninas recém nascidas. Aqui só tem um respirador artificial. Elas chegaram ao mesmo tempo, já moribundas, e eu tive que decidir qual ia viver.
Eu não sou ninguém para decidir isso, pensou o médico: que Deus o decida.
Mas Deus não disse nada.
Escolhesse quem escolhesse, o médico ia cometer um crime. Se não fizesse nada, cometeria dois.
Não havia tempo para nada. As meninas estavam nas últimas, já indo embora deste mundo.
O médico fechou os olhos. Uma foi condenada e morrer, a outra foi condenada a viver.

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