Os dias estavam quentes e as noites, impraticáveis. Lá na frente um pouco menos, já que o motorista achou conveniente dirigir com a porta dianteira aberta. Foi lá que eu sentei, bem pertinho da trocadora.
Em uma das milhões de curvas que fizemos, saimos bem em frente a um cemitério, que se eu me lembro bem fica em Botafogo. Reparei que a trocadora olhava atentamente para o cemitério com a sombrancelha franzida, como quem está bravo, ou com medo, ou indignado. Se eu a conhecesse poderia supor qual dos três casos era o dela, mas não dava e eu iria morrer sem saber. Até que ela resolve perguntar para o motorista: "Nél, você já viu esses anjo do cemitério? Já reparou, Nél? Eu tenho um medo. Me arrepia todinha. Olha aqui!" - diz ela, estendendo os braços em direção ao motorista, que ri sem olhar pra ela.
Enquanto o motorista ri - e eu também rio - do que ela fala, ela continua olhando com o mesmo olhar e a mesma sombrancelha para o cemitério e desabafa: "Eu tenho medo daqueles ali óh, que tem os braços abertos assim" - explica ela, olhando para um anjo específico e imitando-o ao mesmo tempo.
O motorista da uma olhadinha para o cemitério, olha novamente para a rua e rí. Então ela continua: "Sabe Nél, que eu tenho mais medo dos anjo do que dos defunto? Vai ver se me aparecesse um defunto eu batia até papo. Mas se me aparece um anjo desses aí... Eu me cago, Nél. Eu me cago mesmo, sem exagero".
Nenhum comentário:
Postar um comentário