O que gostava de fazer Irene? Ela que nunca sorria, e se sorria, era só porque a pronuncia pedia. Ou por ironia, muitas vezes, quando a nossa não lhe satisfazia. Que bem pronunciava Irene! Que bem pronunciava Irene quando me repetia, indignada, que eu pronunciava mal a letra "T".
Sinto falta de Irene nas segundas e nas quartas. E também nos domingos a noite, quando, automaticamente, começo a pensar o que me perguntará Irene. O que responderei a Irene. Como diabos pronunciar a "T" melhor pra surpreendê-la. Ambrose Bierce, Irene, Edgar Allan Poe, Irene, BBC, Irene, sempre Irene, Irene, Irene.
Não me despedi de Irene como gostaria, mas como deveria. Vi que Irene, ao entregar as notas, olhou com olhar de preferência e quase amizade para mim e Julieta. Ela nunca demonstraria preferência para um mau aluno. Isso era melhor que qualquer nota pra mim. Enquanto ia embora, tentando guardar algumas últimas imagens dela, percebi que Irene não viu quanto de amor havia no último olhar que dei a ela. Ela estava paralizada, excitada, em transe, escutando dois alunos falando na sua lingua preferida. Pronta pra interrompê-los ao primeiro sinal de equivoco. Como uma leoa. A leoa da língua estrangeira.
Tumbeiro não é como Irene. Tumbeiro tem um sorriso complacente e não expressa indignação quando escuta um erro em sua língua preferida. Quiçá, esta nem seja sua língua preferida. Pode ser que um dia Tumbeiro se atrase 5 ou 10 minutos e entre sorrindo. Nós sorriríamos também. Como bobos, pensaria Irene. Tumbeiro não se sente invadida quando lhe fazemos perguntas pessoais. O que diria Irene sobre termos o e-mail pessoal de Tumbeiro? Temos desde a primeira semana. Todos sabemos que Tumbeiro é alérgica aos chocolates, usava arquinho quando criança e odiava a comida de Londres. Odiar é uma palavra minha. Tumbeiro nunca diria algo assim. Tumbeiro era sempre suave, doce, leve, nova, ia pelas beiradas. Ao contrário de Irene, dura, velha, direta.
Mas eu gostava mais de Irene.
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