Na Echeverría
Sentada e com frio
Eu estava no meio fio
Da praça
Quando cê me viu
- Vem cá - Você disse, com seu bracinho fino e frágil
- Vem cá - Você disse, me olhando com seus olhinhos pequenininhos de japones, ou chines, ou... Sei lá
- Vem cá - Você disse, finalmente falando, com voz, mexendo sua boca, que já não tinha alguns dentes
De repente dividiamos o mesmo banco
E até dividiriamos um mate, se eu tivesse aceitado
Você era coreano, descobrí:
80 anos e cheio de manias
Ainda por cima, tinha uma mulher louca
Que não quis viver no Brasil
Porque só tinha negro e macaco (!)
Em alguns instantes estava você mais próximo
Tapeando (essa palavra existe?) minhas mãos
E falando sobre meu futuro
Nada te irritava:
Nem as crianças que gritavam perto da gente
Nem o preço absurdo do mate que você comprou
Nem mesmo o fato de eu rir de quase todas as suas adivinhações
Quando a apendicite chegou, quase dois anos depois, me lembrei de você
E meses depois que me recuperei, estava de volta a Echeverría
Dessa vez não fazia frio e a praça estava mais cheia que nunca
Entre 9 e 11 da manhã, te procurei em cada banquinho
Onde estaria você, que não na praça, entre 9 e 11?
Teria perdido a hora? Largado a mania de horário? Enjoado daquela praça? Virado viúvo justo naquela semana? Se mudado para o Rio de Janeiro?
A parte de adivinhações fica pra você
Dia desses te procuro outra vez,
Meu velho amigo coreano da praça de Belgrano.
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